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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

14 de Janeiro de 1958 - há 353 anos

Em 1658, o exército espanhol, comandado por D. Luís de Haro, acampava na fronteira do Caia, com 14 000 homens de infantaria, 5 000 de cavalaria, artilharia. Alguns dias decorreram em preparativos quer no lado espanhol para o cerco de Elvas, quer por parte dos portugueses para defenderem a cidade. D. Luís de Haro distribuiu as suas tropas ao longo de entrincheiramentos cercando a praça, dando ordem para que fosse exercida apertada vigilância a fim de impedir que Elvas recebesse mantimentos ou qualquer outra espécie de auxílio vindo do exterior, de tal modo que só a chegada de um verdadeiro Exército poderia evitar mais cedo ou mais tarde, a capitulação da praça. A rainha D. Luísa resolveu chamar D. António Luís de Meneses, conde de Cantanhede, para lhe entregar o comando geral das tropas portuguesas no Alentejo, e transferir para o mesmo teatro de operações D. Sancho Manuel, que foi assumir as funções de Mestre-de-campo-general. As tropas espanholas instaladas nas duas colinas mais próximas começaram a bombardear a praça de Elvas, causando pânico e grandes baixas na população. Mas o maior perigo era a peste que causava cerca de 300 mortes por dia.

Mediante tal situação, o conde de Cantanhede, D. António Luís de Meneses reuniu em Estremoz um exército a fim de socorrer aquela praça do cerco espanhol. Apesar de grandes dificuldades, que o obrigaram a organizar recrutamentos em Viseu e na ilha da Madeira, e reunir as guarnições de Borba, Juromenha, Campo Maior, Vila Viçosa, Monforte e Arronches, o conde de Cantanhede conseguiu formar um exército de oito mil infantes, dois mil e novecentos cavaleiros guarnecidos por sete canhões. Tendo ficado acordado, entre o conde de Cantanhede e D. Sancho Manuel, que o ataque às linhas de Elvas se faria pelo sítio conhecido por Murtais, o exército português saiu de Estremoz e marchou sobre a praça cercada.

Os brigantinos ocuparam as colinas da Assomada, de onde se avistava a cidade de Elvas e as linhas inimigas, estas num majestoso arraial. No dia 14 de Janeiro, cerca das oito horas da manhã, os portugueses desencadearam o ataque como estava previsto pelo sítio dos Murtais. Manteve-se indecisa a vitória durante algum tempo, pois ao ataque respondiam os espanhóis com vigorosa defesa, mas a certa altura as tropas do conde de Cantanhede conseguiram romper irremediavelmente as linhas de trincheiras dos espanhóis, que começaram por ceder terreno e não tardaram a debandar.

As perdas sofridas pelas tropas filipinas nas linhas de Elvas foram enormes. Dos dezoito mil homens comandados por D. Luís de Haro, apenas cerca de cinco mil infantes e trezentos cavaleiros conseguiram alcançar Badajoz.

Nesta batalha distinguiu-se o conde de Cantanhede, que recebeu, entre outras mercês, o título de marquês de Marialva, por carta de lei de 11 de Junho de 1661.

sábado, 9 de outubro de 2010

MONUMENTAL LIÇÃO DE HISTÓRIA ! E não só!

Abandonemos, ainda que por momentos, o preconceito que se instalou nas nossas cabeças em consequência da maneira como nos foi ensinado a História e apreciemos o ponto de vista de um descendente índio que se segue:

"Aqui estou eu, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos, para encontrar os que a "descobriram" há 500...

O irmão europeu da alfândega pediu-me um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram.

O irmão financeiro europeu pede ao meu país o pagamento, com juros, de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse.

Outro irmão europeu explica-me que toda a dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros, sem lhes pedir consentimento.

Eu também posso reclamar pagamento e juros.

Consta no "Arquivo da Companhia das Índias Ocidentais" que, somente entre os anos de 1503 a 1660, chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América.

Teria aquilo sido um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao sétimo mandamento!

Teria sido espoliação? Guarda-me Tanatzin de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão.

Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a actual civilização europeia se devem à inundação dos metais preciosos tirados das Américas.

Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro de tantos empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas uma indemnização por perdas e danos.

Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva.

Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano "MARSHALL MONTEZUMA", para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra e de outras conquistas da civilização.

Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, podemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional responsável ou pelo menos produtivo desses fundos?

Não. No aspecto estratégico, delapidaram-nos nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em terceiros reichs e várias outras formas de extermínio mútuo.

No aspecto financeiro, foram incapazes - depois de uma moratória de 500 anos - tanto de amortizar capital e juros, como de se tornarem independentes das rendas líquidas, das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo.

Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar, o que nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão generosamente, temos demorado todos estes séculos para cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus, as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e até 30% de juros ao ano que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo.

Limitar-nos-emos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, concedendo-lhes 200 anos de bónus. Feitas as contas a partir desta base e aplicando a fórmula europeia de juros compostos, concluímos, e disso informamos os nossos descobridores, que nos devem não os 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, mas aqueles valores elevados à potência de 300, número para cuja expressão total será necessário expandir o planeta Terra.

Muito peso em ouro e prata... quanto pesariam se calculados em sangue?

Admitir que a Europa, em meio milénio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para estes módicos juros, seria admitir o seu absoluto fracasso financeiro e a demência e irracionalidade dos conceitos capitalistas.

Tais questões metafísicas, desde já, não nos inquietam a nós, índios da América.

Porém, exigimos a assinatura de uma carta de intenções que enquadre os povos devedores do Velho Continente na obrigação do pagamento da dívida, sob pena de privatização ou conversão da Europa, de forma tal, que seja possível um processo de entrega de terras, como primeira prestação de dívida histórica..."

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Outeiro de Polima, um pouco de história e estórias


Encontrei este artigo no sitío da Junta de Freguesia de São Domingos de Rana. Muito interessante e educativo para nos dar uma pequena imagem do que é esta nossa pequena aldeia. Poderão ler o artigo original aqui.

Outeiro de Polima

Até ao início da década de sessenta, a povoação de Outeiro de Polima era constituída por meia dúzia de casas. A chegada de emigrantes de diferentes pontos do país, principalmente da província alentejana, ditou o crescimento do agregado populacional a partir de 1961.


A bela e os monstros

'Que me desculpem os moradores e, especialmente, os naturais de Outeiro de Polima. Na verdade, ao olhar para o Outeiro de Polima de agora e ao recordar o que o Outeiro foi antigamente, a imagem que me ocorre é precisamente esta: a da bela e a dos monstros que lhe estão ao lado.

Ao lado, por dentro, a leste, a sul e, sobretudo, a poente – que aquele Cabeço de Mouro quem lhe autorizou o traçado urbanístico devia estar, nesse dia, em maré de fortes cólicas renais ou quejanda maleita espasmódica. E pariu-se um monstro, que não tem cauda por onde se pegue; mas, se calhar, também nem interessa pegar e que Deus lhes tenha a alma em descanso.

Pois Outeiro de Polima, quando não estava na péssima companhia em que hoje a puseram, ainda por cima com os odores ‘melífluos’ que, amiúde, lhe correm de norte, lá das bandas da lixeira de Trajouce, Outeiro de Polima era saudável e simpática terra saloia.

E que vistas gozava, senhores!...

Ele era, da parte sul, as colinas suaves e arborizadas (fica nessa direcção a Quinta do Marquês) até o olhar se prender na foz do Tejo; nas embarcações várias a entrar e a sair, em busca de sonho ou de alimento; no dorso gigantesco da Arrábida a terminar abruptamente no sagrado Cabo Espichel…

Para nascente, o vale do ribeiro da Freiria, o cômoro, os moinhos de Porto Salvo – e era Oeiras, já.

Para norte – ah! para norte!... – os campos de trigo, os tufos de zambujeiros e, ao fundo, solene, sagrado também ele, o corpo adormecido da Serra de Sintra, com seu palácio real no topo dum dos cumes e a Cruz Alta no outro mais adiante. E, aos pés, agora solene, a “villa” romana de Freiria, debruçada a remirar-se nas margens verdejantes do ribeiro…

No interior, meia dúzia de casais, de que resta, pelo menos, um, agonizante, na angústia do condenado à morte, que espera, a todo o momento, a injecção letal sem seringa desinfectada, estrondosamente derrubado, num abrir e fechar de olhos, sem que alguém lhe prante flores na sepultura ou por ele ouse deitar furtiva lágrima saudosa.

Lá está, no largo, janelas escancaradas já, telhado a abaular – que as traves apodrecem aqui e acolá. No pátio, outrora buliçoso, cresce a erva e seca e volta a crescer: há osgas, lagartixas, aranhões…

Diante dessa agonia, quem preza o património interroga-se: porque é que, em vez de terem feito casarão na encosta norte, para Centro de Dia e Centro Médico, as entidades não pensaram no casal, não falaram com os proprietários e não lançaram mãos à reabilitação?

Ficou, decerto, mais barato fazer casarão de raiz, como contrapartida (quiçá) pela aprovação de alguma das urbanizações ou de complexo fabril (dos muito que bordejam a estrada até ao cruzamento para Polima). Teria sido porém, obra meritória, a ressarcir entidades e loteadores (já agora!...) do crime que foi, por exemplo, a destruição do ímpar Casal da Pintora, na Polima vizinha…

Curiosamente, o casal é como a “villa” romana: a casa senhorial, mais imponente e alta, o pátio interior murado (o valado de pedra solta a dar pátina ancestral…), as outras dependências – para o crescer da família ou para acomodação das bestas e dos fenos e dos cereais – a juntarem-se-lhe pouco a pouco. Até por isso, como símbolo, o casal merecia preservado. E no sítio onde está, bem no coração da aldeia, era essa uma obra de muito louvar! O desafio aqui fica, o grito de alerta lançado, na velada esperança de que - quem sabe?... - a ideia floresça em manifesto eleitoral.

“Outeiro” – porquê?

Bastaria, portanto, a posição privilegiada que goza, entre a serra e o mar, bem lavada de ventos e maus humores (outrora…), para que o local fosse habitado desde as mais remotas eras.

E, sem nos demorarmos nos vestígios pré-históricos que Guilherme Cardoso identificou para os lados de Cabeço do Mouro (cujo nome, aliás, é bem sintomático), o certo é que o topónimo está sempre presente no rol das localidades de Cascais. Era um “outeiro” e como tal ficou. Juntou-se-lhe “de Polima” para distinguir de outros, pois que o nome Outeiro é bem frequente na toponímia, e não poderá inferir daqui que Polima tivesse mais importância que Outeiro. Ambos os lugares foram, durante séculos, habitados por uma população de agricultores e pastores, pois que as terras eram férteis e abundantes os mananciais de água.

E os romanos estiveram por ali

Data de 1913 a primeira referência ao Outeiro no domínio das antiguidades arqueológicas. Trata-se da conhecida nota, da autoria de Vergílio Correia, inserida no n.º 18 da revista “O Archeologo Português”.

Contando o que foi a sua “excursão arqueológica”, realizada a 18 de Outubro de 1912, “pelos arredores de Paço de Arcos e Oeiras”, escreve V. Correia a dado passo:

“Partindo de Tires para Porto Salvo, pelos montes, encontra-se um ‘cabeço mouro’, todo coberto de mato e, por isso, impenetrável; e, logo depois, num plano entre esse cabeço e a pequena povoação do Outeiro, uma estação romana, onde há restos de tégulas, potes e ânforas. No cerrado da primeira casa do Outeiro, divisei uma pequena ‘mola manuaria’, que decerto proveio da mencionada estação” (p.94).

‘Tégulas’ são telhas romanas, planas, com rebordo para encaixe dos ‘imbrices’, as vulgares telhas de canudo. Encontrar telhas significava que, ali, outrora, tinham existido casas. ‘Mola manuaria’ é expressão latina que significa ‘mó manual’. Encontrar uma mó significava que a actividade cerealífera era usual.

A pesquisa de Guilherme Cardoso

Coube a Guilherme Cardoso a identificação precisa do sítio dessa ‘estação romana’, de resto parcialmente destruída pela implantação, na parte superior do Outeiro, dos depósitos de água municipais.

As obras aí efectuadas cortaram um pavimento de boa argamassa, o chamado “opus Signinum”, e as prospecções que aquele investigador aí levou a cabo permitiram o achamento, no terreno com o número matricial 1349, propriedade do Sr. Elias da Costa, de abundantes pesos de tear (mais de duas dezenas!) feitos de barro, além de outros objectos indiciadores de intensa ocupação romana, como tijolos de quadrante (que serviam para fazer colunas).

A forte pressão urbanística sobre o local determinou a necessidade de rapidamente se formalizar o processo de classificação do sítio como “imóvel de interesse público”, com vista à sua preservação. Assim se fez e temos presente o anúncio publicado na imprensa local, para esse efeito, a 23 de Dezembro de 1997, por ordem camarária, na sequência do despacho de 13 de Fevereiro de 1989 da Senhora Secretária de Estado da Cultura. Um processo, como se adivinha pelo intervalo de tempo, que não foi fácil de gerir.

O sonho

Como tivemos ensejo de recentemente assinalar – e enquanto o proprietário não autorizar as escavações que dariam resposta às nossas interrogações e, inclusive, melhor nos ajudariam a definir a área “non aedificandi”, ou seja, a área de protecção do imóvel, o que traria notórias vantagens para toda a gente – é nosso entendimento que o sítio poderá ‘conter’ a residência do “vilicus”, ou seja, do rendeiro que ‘governava’ a “villa” de Freiria, que lhe fica aos pés.

O nosso sonho, ou melhor, os nossos dois sonhos são: poder, um dia, escavar integralmente o local, para o valorizarmos e determinarmos, ao certo, de que tipo de monumento arqueológico se trata; o largo do Outeiro, com o seu vetusto casal reabilitado, possa vir a ser a antecâmara dos visitantes daquela “villa”, que dali desceriam a pé, gozando do espectáculo admirável de umas ruínas bem integradas na paisagem urbana e paisagem rural.'